Papa no Uruguai: a mensagem do Evangelho frente à secularização
- 31/10/2026
“Anuncio-vos uma grande alegria” foi o lema escolhido para falar a um país onde menos da metade da população se declara católica e quase 30% é de agnósticos ou ateus
Jéssica Marçal
Da Redação

Palácio Salvo em Montevidéu, capital do Uruguai / Foto: Nikolai Kolosov de Pexels via Canva
A primeira etapa da longa viagem do Papa Leão XIV à América do Sul será no Uruguai, o país mais secularizado da América Latina. O Pontífice ficará por lá de 6 a 8 de novembro, com uma programação que prevê profundos momentos de espiritualidade, como a vigília de sábado à noite no Estádio Centenário, mas também a proximidade do Papa a realidades sociais, com a visita ao bairro de Casavalle, uma área de extrema pobreza.
“Anuncio-vos uma grande alegria” foi o lema escolhido para a visita, o que já carrega o tom da viagem apostólica frente ao cenário de secularização. O laicismo foi oficializado no país há mais de cem anos; apenas 33% dos habitantes se identifica como católico e outros 28% se declaram agnósticos ou ateus. Datas religiosas até foram mantidas, mas com outros nomes: o Natal passou a ser “Dia da Família” e a Páscoa, “Semana do Turismo”.
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Confirmação na fé e visibilidade para a Igreja

Miguel Pastorino / Foto: Arquivo Pastoral
A Igreja é livre, mas ocupa um lugar secundário. Estima-se que apenas cerca de 4% da população católica participe da missa dominical. Nesse sentido, a presença do Papa é importante para confirmar na fé os fiéis do país, conforme avalia o professor Miguel Pastorino, teólogo, doutor em Filosofia e membro da Sociedade Filosófica do Uruguai. “Do lado de dois gigantes como Brasil e a Argentina, o nosso pequeno país também comemora com muita alegria e com muita emoção a visita do Papa”.
A viagem do Papa também deve impactar os que não professam fé alguma, explica o professor, já que traz uma visibilidade ao catolicismo. “Nós estamos sendo notícia no mundo, porque muitos aqui no Uruguai nem sabem quem é o Papa – eu estou falando da população mais nova. É um impacto visibilizar o catolicismo neste nível, sem dúvidas é uma boa notícia. Eu não estou falando que as pessoas vão se converter ao catolicismo, eu não acredito que isso aconteça, porém vai gerar um impacto positivo em relação à Igreja.”
Desafios da secularização
Pastorino desenvolve estudos na área da filosofia da religião, investigando a relação entre fé e razão, ciência e religião e temas como a laicidade e liberdade de expressão. Ele explica que a secularização no Uruguai é fruto de um processo cultural que vem de antes, da separação da igreja e do estado. Historicamente, trata-se de uma população mais racionalista onde não há uma religiosidade popular.
Muitos aqui no Uruguai nem sabem quem é o Papa – eu estou falando da população mais nova.
Miguel Pastorino, teólogo uruguaio
Essa questão cultural muito secular é uma marca do país, onde as pessoas tendem mais para movimentos que pregam uma religiosidade “terapêutica”, “esotérica”, acrescenta Miguel. Assim, quem deixa a Igreja não se converte para outra religião, mas sim passa a ser indiferente ou participar dessa “espiritualidade new age”. “Isso tem configurado um jeito de religiosidade muito privatizada, onde não se manifesta publicamente a religiosidade. O uruguaio tem aprendido a manter a religiosidade no âmbito da consciência individual.”

Leão XIV visitará o Uruguai de 6 a 8 de novembro / Foto: REUTERS/Guglielmo Mangiapane
Uma Igreja que “se mostra mais”
Essa realidade peculiar do Uruguai já havia sido vista de perto pelo Papa João Paulo II, que esteve no país em duas ocasiões: em 1987 e em 1988. De lá pra cá, muita coisa mudou culturalmente, mas não apenas no Uruguai. Pastorino pontua que tem diminuído no país o chamado “catolicismo cultural”, que se refere às pessoas que não se sentem comprometidas com a fé, mas antigamente eram vinculadas com o catolicismo.
Outra mudança que se observa é na presença da própria Igreja no Uruguai: segundo o teólogo, sempre foi mais discreta, sem influência forte no século XX. “A Igreja aqui sempre foi mais discreta, então um desafio importante sempre é a evangelização, em um contexto mais secularizado”. E Miguel traz um exemplo disso: “Um aluno me perguntou uma vez o que é um Evangelho, ele nunca ouviu falar, não conhece nada”.
Desde os anos 2000 este cenário tem mudado, analisa Pastorino. “A Igreja no Uruguai, a partir dos anos 2000, tem essa mudança de querer se mostrar mais, de deixar de ser discreta, de manifestar mais a identidade católica. Para o uruguaio, sempre foi difícil fazer isso, só que a partir dos anos 2000 existe uma expressão muito importante de querer se mostrar mais”, concluiu.
É para esta Igreja que Leão XIV levará mensagens de fé, esperança e paz nos três dias de sua estadia no pequeno país, com população estimada em 3,5 milhões de habitantes. No Uruguai, Leão XIV visitará a capital, Montevidéu, e as cidades de Paysandú e Florida.
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